FORUM DE DOR DAS ILHAS DO ATLÂNTICO

 

O ENFERMEIRO NA UNIDADE DE TERAPÊUTICA DA DOR DO HOSPITAL CENTRAL DO FUNCHAL

 

Sendo a dor uma experiência multidimensional subjectiva, requer uma abordagem multidisciplinar, em que cada técnico irá actuar de acordo com a sua área de intervenção e em consonância com os restantes membros da equipa, tendo sempre presente garantir o máximo de bem-estar e qualidade de vida de cada indivíduo.

 

A intervenção do Enfermeiro face ao doente com dor pressupõe, por um lado a sua actuação, ou seja o cuidar o doente com dor e, por outro lado a sua relação perante a dor e o sofrimento.

Comportamentos expressivos como ouvir, mostrar disponibilidade e sensibilidade, permitir a expressão de sentimentos, confortar devem constituir o seu instrumento de trabalho diário, com uma actuação muito superior na área do saber-ser e do saber-estar.

Compete ao Enfermeiro o acolhimento do doente na UTD, faz a consulta / entrevista de enfermagem, onde avalia e regista os sinais vitais, a intensidade da dor – EVA /Escala Numérica, assim como qualquer alteração – agravamento da sintomatologia, alívio da dor, aparecimento de efeitos adversos, que possam ter surgido após a última consulta. A todos os doentes é fornecido um guia terapêutico que inclui a posologia terapêutica instituída, o horário das consultas, o nome de alguns elementos da equipa assim como o número de telefone de acesso directo.

Faz orientações oportunas:

·  Cumprimento do guia terapêutico,

·  Alerta para o aparecimento de possíveis efeitos secundários e algumas estratégias no sentido de os evitar;

·  Orienta o doente e/ou família para a administração da terapêutica transdérmica e transmucosa;

·   Avalia a permeabilidade e funcionamento dos dispositivos de perfusão contínua – DIB, PCA. Orienta o doente e/ou família para os cuidados a ter com os mesmos;

·  Orienta o doente e/ou família para a aplicação do TENS;

·  Avalia e colabora na programação dos sistemas implantáveis, bombas de débito programável e neuro-estimuladores. Orienta o doente e/ou família para a manipulação do programador externo (controlo do doente);

·  Orienta o doente e/ou família para os recursos da comunidade;

·  Prepara e administra terapêutica analgésica;

·  Faz “consultas” telefónicas; os doentes têm acesso directo à unidade, esclarece dúvidas, fazendo ajustes terapêuticos, de acordo com as orientações médicas;

·  Faz algumas técnicas não-farmacológicas, para o alívio da dor, como seja o TENS, orientando o doente e/ou familiar para a sua aplicação no domicílio;

·  Faz registos para a estatística da Unidade;

·  Gere os recursos materiais;

·  Colabora na formação contínua de colegas e estudantes de enfermagem.

 

Quando as técnicas convencionais de alívio da dor, já não são suficientes e é necessário recorrer a técnicas invasivas e/ou outras vias de administração de terapêutica, informamos o doente e família, mostramos os dispositivos e fornecemos alguma bibliografia, para que o doente possa decidir conscientemente. Estas técnicas, são efectuadas à 3ª feira, na Unidade de Hemodinâmica, destacando-se os implantes de cateter com reservatório, implantes de bombas para administração de terapêutica analgésica via intratecal e implantes de Neuroestimulador Medular. Temos ainda, as infiltrações, os bloqueios e preenchimentos de bombas.

Colaboramos com o médico na técnica invasiva, fazendo o papel de Enfermeira instrumentista, ajudante de anestesia, circulante e vigilância no recobro, ou seja, faz todas as actividades inerentes a uma Enfermeira de Bloco Operatório;

O enfermeiro tem um papel importante na diminuição da ansiedade, explicando o que está acontecendo e ajudando o doente a “tolerar” o procedimento. Os doentes ficam, naturalmente, apreensivos sobre o que irá acontecer. Podem também sentir-se intimidados com os equipamentos

Após o procedimento o enfermeiro faz os registos: tipo de intervenção, fármacos utilizados, reacção do doente, quem efectuou e qualquer outro dado pertinente.

*  Prepara os processos dos doentes;

*  Prepara os materiais necessários;

*  Informa os doentes dos procedimentos e esclarece dúvidas que possam surgir;

*  Prepara e administra terapêutica;

*  Orienta o doente para os cuidados a ter após a intervenção.

A nível dos serviços de internamento, dá apoio ao doente com dor crónica e dor aguda: pós-operatória e pós-traumática:

*  Orienta os colegas para a avaliação do 5º sinal vital, utilizando uma das escalas normalizadas, assim como para o seu registo, a todos os doentes internados.

*  Preenche e programa as PCA, colocando-as em perfusão, orienta os colegas para os cuidados a ter com as mesmas e respectiva vigilância;

*  Sempre que oportuno, faz preparação pré-operatória,

informando para a analgesia do pós-operatório – utilização do bólus e orientando para o uso da inspirometria incentivada;

*  Transmite ao Médico da UTD a evolução da situação álgica do doente e possíveis alterações / agravamentos.

 

Com o fim de prestar cuidados de saúde de forma personalizada e contínua aos doentes com dor crónica no domicílio, com um nível de qualidade compatíveis com os recursos, surge o projecto “Um Hospital na Comunidade”, que visa:

o Fornecer apoio ao utente com dor e família no domicílio;

o Diminuir a frequência e o tempo de internamento nos serviços;

o Diminuir o número de vindas à consulta e ao serviço de urgência;

o Promover articulação da equipa da Unidade Terapêutica da Dor com a equipa de Cuidados de Saúde Primários de forma a haver uma melhor continuidade dos cuidados.

Normalmente, o planeamento da visita domiciliária é feito na semana anterior à sua realização, podendo ser alterado de acordo com as necessidades dos doentes.

A triagem é feita pela equipa multidisciplinar da Unidade de Terapêutica da Dor, de acordo com o grau de dependência, de debilidade e da complexidade do tratamento. Têm prioridade os doentes com perfusão epidural, intratecal e subcutânea seleccionamos também alguns doentes com terapêutica oral e/ou transdérmica, quando detectamos dificuldades no cumprimento do esquema terapêutico.

O doente é informado durante a consulta, do dia e da hora da visita. Contactamos também a enfermeira do Centro de Saúde responsável pelo doente, informando-a da Visita Domiciliária e solicitamos a sua colaboração e acompanhamento.

Iniciamos a visita domiciliária com a avaliação do estado geral de saúde do doente e suas implicações nas actividades de vida diária.

o       Avaliamos as características da dor.

o       Verificamos se a medicação prescrita está a ser devidamente administrada, e se há utilização de analgésico em SOS e a sua frequência.

o       Se o doente possui cateterismos: SC, Epidural ou Intratecal, verificamos a sua permeabilidade, mudamos o local de punção se necessário e prestamos os cuidados inerentes a esses cateterismos.

o       Preenchemos Dibs e/ou PCA, orientamos para a utilização de bólus e substituição de bateria.

o       Fazemos educação para a Saúde, ao doente, família ou pessoa significativa de acordo com as necessidades observadas.

o       Orientamos para medidas não farmacológicas de alívio da dor.

o      Esclarecemos sobre outras técnicas de tratamento invasivo ou não (quando oportuno) desde introdução de cateteres, implantes de bombas de morfina, implantes de Electro-Estimulador Medular (EEM), assim como a manipulação dos respectivos dispositivos.

o       Prestamos apoio emocional ao doente e família ou pessoa significativa, esclarecendo dúvidas e desmistificando os tratamentos.

o       Preparamos para o luto, se for oportuno.

Muitos dos familiares também expressam os seus medos e inseguranças, que nós procuramos atender.

Na abordagem ao doente no domicílio é crucial o apoio dado pelas enfermeiras dos Cuidados de Saúde Primários, quer na complementaridade dos cuidados quer na sua continuidade onde a partilha de informação é fundamental, funcionando como elemento de ligação entre doente/família e Unidade Terapêutica de Dor.

É fundamental o empenho e envolvimento de todos os elementos da equipa prestadora de cuidados, no sentido de proporcionar uma melhoria da qualidade dos mesmos e consequentemente uma melhoria da qualidade de vida. Como nos diz Claude Bernarde “…se não podemos dar dias à vida, que seja dada vida aos dias”.

 

  

 

Enfª Fátima Vieira